Percebi recentemente um movimento interessante no mundo da mineração. A empresa Bitdeer começou a vender todas as suas reservas de Bitcoin completamente. Isso não é apenas estranho, mas ela faz isso para financiar um grande projeto: a transição da mineração de criptomoedas para a infraestrutura de inteligência artificial.



Em fevereiro passado, a Bitdeer vendeu 189,8 Bitcoins produzidos na semana, e esvaziou totalmente suas reservas. Ao mesmo tempo, fechou um financiamento de 325 milhões de dólares. Quando somamos todos os números, a dívida total agora ultrapassa 1,3 bilhão de dólares. Isso não é uma quantia pequena.

A lógica por trás dessa decisão é clara: o fundador Wu Jihan aposta em algo diferente desta vez. Anteriormente, a mineração apostava na alta do preço do Bitcoin. Agora, a aposta é na demanda crescente por poder de computação na era da inteligência artificial. O objetivo mudou, mas a ideia principal permaneceu: apostar no futuro.

Os ativos que a Bitdeer acumulou ao longo dos anos de mineração não são simples. Ela possui agora 3002 megawatts de capacidade de energia global, sendo 1658 megawatts em operação e 1344 megawatts em construção. Isso equivale às necessidades energéticas de 10 a 30 centros de dados gigantes como Google ou Microsoft, em uma única empresa.

Os principais projetos são três. Primeiro, Rockdale no Texas com 563 megawatts, já em operação e focado na mineração tradicional. Segundo, Clarington em Ohio com 570 megawatts, que é o verdadeiro coração do projeto. Terceiro, Tydal na Noruega, convertendo uma antiga instalação de mineração em um centro de dados de inteligência artificial com 164 megawatts de energia hidrelétrica barata.

No aspecto técnico, a Bitdeer desenvolveu seus próprios chips sob o nome SEALMINER. A terceira geração, SEAL03, atingiu eficiência de 9,7 joules por terahash. A quarta geração, SEAL04, mira 5 joules por terahash, e se isso for alcançado, superará todos os equipamentos de mineração atualmente no mercado. A margem de lucro dessas chips ultrapassa 40%, muito acima dos lucros da mineração em si. Isso é semelhante ao que Wu Jihan fez anteriormente na Bitmain: de comprar ferramentas de outros a fabricar suas próprias ferramentas.

Porém, os números atuais da inteligência artificial são bastante modestos. As receitas do setor de IA atualmente giram em torno de 10 milhões de dólares por ano, menos de 2% do total de receitas. O número de unidades de GPU aumentou de 584 para 1792 em apenas três meses, mas a taxa de utilização caiu de 87% para 41%. A razão é simples: os equipamentos são instalados rapidamente, mas os contratos com clientes ainda não começaram.

Segundo estimativas de analistas, se toda a capacidade for utilizada, a receita anual pode chegar a 850 milhões de dólares. A gestão espera muito mais: 2 bilhões de dólares por ano, se 200 megawatts forem totalmente dedicados à inteligência artificial. Mas esses números dependem de três condições: concluir a construção no prazo, obter contratos de longo prazo com hyperscalers maiores, e usar as unidades de GPU em sua capacidade máxima. Até agora, nenhuma dessas condições foi atendida.

O peso dos juros anuais, com uma taxa média de 5% sobre 1,3 bilhão de dólares, ultrapassa 65 milhões de dólares por ano. Isso é uma pressão real. A empresa depende de emitir novas dívidas continuamente para rodar. Cada emissão de títulos faz o valor das ações cair entre 10% e 17%. Isso virou uma reação automática no mercado.

O maior risco agora não são as dívidas em si, mas os detalhes da execução. Uma fábrica de aço chamada American Heavy Plate Solutions entrou com uma ação contra a Bitdeer por causa do projeto Clarington, alegando que a construção conflita com a infraestrutura compartilhada. Clarington representa 42% das tubulações em construção. Se parar, todo o cronograma desmorona.

No setor de mineração, a pressão aumenta. Em fevereiro, a dificuldade da rede Bitcoin subiu 14,7%, a maior alta desde maio de 2021. A margem de lucro caiu de 7,4% para 4,7% no último trimestre. O caminho da mineração fica cada vez mais estreito.

O cenário mais pessimista é claro: a ação de Clarington dura dois anos, Tydal atrasa, as unidades de GPU permanecem com 41% de utilização, o primeiro vencimento das dívidas é em 2029, com falta de liquidez, forçando a empresa a buscar financiamento adicional e a diluir suas ações continuamente.

Mas há uma lógica mais profunda aqui. Wu Jihan não comprou produtos ou serviços. Ele comprou infraestrutura. Comprou terras, energia e servidores. Não importa quem os usará, o importante é que alguém pague a conta de energia. Isso não é um investimento em um vencedor, mas um monopólio do caminho até o vencedor.

A Amazon não investiu em uma empresa de internet específica, apenas alugou servidores para todos. A AT&T não se importa com o conteúdo das chamadas, apenas que elas sejam feitas. O longo prazo da indústria é um só: de vender produtos a vender serviços, e de coletar aluguéis.

A questão agora é: Wu Jihan consegue chegar ao final antes que o caixa acabe? Ele tem uma janela muito estreita. Precisa concluir Tydal até o final de 2026, conquistar Clarington em 2027, e operar ambos os projetos na capacidade total até 2029. Se tiver sucesso, as receitas saltarão para um bilhão de dólares, e a avaliação da empresa passará de uma mineradora descontada para uma infraestrutura de inteligência artificial com prêmio. Se fracassar, a pressão se tornará insustentável. O tempo é a moeda mais valiosa agora.
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