Tenho analisado essa questão bastante recentemente porque muitos traders muçulmanos me perguntam sobre isso. A resposta curta? A maioria dos estudiosos islâmicos diz que a negociação de futuros no islamismo hoje não está alinhada com os princípios da Shariah, e há razões bastante sólidas para isso.



Deixe-me explicar o que os principais estudiosos realmente dizem. Primeiro, há a questão do gharar – essa coisa de incerteza excessiva onde você negocia contratos por ativos que ainda nem possui. Na lei islâmica, isso não é permitido. Há um hadith de Tirmidhi que é bem claro: não venda o que você não possui. A negociação de futuros funciona exatamente assim, então dá para entender por que se torna problemática.

Depois, há o riba, que é o componente de juros. A maioria dos futuros envolve alavancagem e negociação de margem, o que significa que você está emprestando dinheiro com encargos de juros. O islamismo proíbe qualquer forma de riba, ponto final. Além disso, há o aspecto de especulação e maisir – essencialmente jogo – e você tem três grandes problemas juntos.

O que realmente me incomoda é a situação de entrega e pagamento atrasados. Contratos islâmicos como o salam exigem que pelo menos um lado da transação seja imediato. Mas, com os futuros convencionais, tanto a entrega do ativo quanto o pagamento são adiados para o futuro, o que viola de forma bastante fundamental a lei dos contratos islâmicos.

Agora, alguns estudiosos – e essa é a visão minoritária – sugerem que certos contratos a termo podem funcionar sob condições extremamente rigorosas. Estamos falando de ativos que são realmente halal e tangíveis, onde o vendedor realmente possui o que está vendendo, e o contrato é puramente para hedge de necessidades comerciais legítimas. Sem alavancagem, sem juros, sem venda a descoberto. Isso é basicamente contratos de salam, não o que a maioria das pessoas chama de negociação de futuros no islamismo hoje.

As grandes instituições são bastante unânimes nisso. AAOIFI proíbe explicitamente os futuros convencionais. Escolas tradicionais como a Darul Uloom Deoband consideram isso haram. Mesmo economistas islâmicos modernos reconhecem que, embora derivativos compatíveis com a shariah possam existir teoricamente, futuros convencionais não são um deles.

Então, se você quer investir dentro dos princípios islâmicos, o caminho halal é bem claro: fundos mútuos islâmicos, ações compatíveis com a shariah, sukuk, ou investimentos baseados em ativos reais. Esses oferecem exposição aos mercados sem os problemas de gharar, riba e especulação que tornam os futuros tradicionais problemáticos do ponto de vista islâmico. Essa é a resposta prática que a maioria dos estudiosos concorda.
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