As empresas de Wall Street podem adotar a tecnologia blockchain, mas não na sua forma atual. O livro-razão aberto e distribuído, visível a todos, vai contra o funcionamento tradicional das finanças, disse Don Wilson, fundador e CEO da DRW, uma firma de trading TradFi que atua no setor de criptomoedas há mais de uma década.
“Não há qualquer cenário em que as instituições digam: ‘Ah, sim, basta publicar todas as minhas operações na cadeia’”, afirmou Wilson na Digital Asset Summit em Nova Iorque, na quinta-feira. “Qualquer gestor de fundos consideraria uma falha de dever fiduciário expor ao mundo cada operação que realiza.”
Ter cada operação visível entra em conflito com a gestão de risco e a proteção das estratégias de trading, explicou Wilson. Se um investidor com uma grande participação numa empresa começar a vender ações, outros participantes do mercado poderão detectar o padrão, e as primeiras operações terão um “enorme impacto no preço” das operações subsequentes do investidor. Em outras palavras, a transparência prejudica o trader.
“O problema não é a tecnologia em si, mas a forma como ela é implementada”, afirmou Wilson. “Acho que é um erro colocar coisas nessas cadeias que tenham transparência total.”
A DRW foi fundada em 1992 e lançou a Cumberland em 2014, uma das primeiras mesas de trading institucional de criptomoedas, exatamente quando os mercados de bitcoin, atualmente em torno de @BTC$68.877,41, começaram a se consolidar. Essa entrada precoce proporcionou à empresa uma visão privilegiada de como os ativos digitais evoluíram de mercados de nicho para infraestrutura que os bancos agora estudam.
O foco atual de Wilson reflete essa mudança. Ele apontou esforços para trazer ativos tradicionais para a blockchain e alertou contra fazê-lo em redes totalmente transparentes.
O Ethereum tem sido apresentado há muito tempo como a blockchain mais provável de se integrar ao Wall Street, com desenvolvedores destacando seu grande ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi) e seu papel nas primeiras iniciativas de tokenização.
Porém, assim como o Bitcoin, todas as transações são visíveis, e grandes bancos seguiram um caminho diferente. Muitos passaram anos construindo ou apoiando redes privadas e permissionadas, argumentando que as instituições financeiras precisam de maior controle sobre dados, acesso e conformidade. Empresas como o JPMorgan, o maior banco dos EUA por ativos, desenvolveram sistemas internos, enquanto outras apoiaram plataformas projetadas para limitar quem pode ver e validar transações.
Wilson defende sistemas que limitem a visibilidade. “Privacidade está no topo da lista”, afirmou, descrevendo as funcionalidades necessárias para a adoção institucional. Ele também citou questões de estrutura de mercado, como front-running. “Essa capacidade de reordenar transações… simplesmente não é adequada para os mercados financeiros.”
Seus comentários surgem enquanto a tokenização ganha força na indústria. Bancos e gestores de ativos estão testando formas de transferir ações, títulos e outros ativos para sistemas baseados em blockchain. Wilson concorda que a oportunidade é grande, especialmente para as principais classes de ativos. Mas espera que o design seja diferente do das cadeias públicas atuais.
“Acho óbvio que isso não acontecerá”, disse, referindo-se à ideia de que as instituições adotariam sistemas totalmente transparentes. “Todo mundo acha que estou louco… então, não sei. Talvez eu esteja errado. Vamos ver.”